Desabafo #7: a luz no fim do surfe | Langai

Desabafo #7: a luz no fim do surfe

Publicado: 17/06/2020




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Em um mês de quarentena, eu e meu parceiro tiramos o atraso da arrumação da casa. Consertamos o que tinha de ser consertado, demos aquele tapa na horta e a casa agora se mantem limpa.

Estou cuidando melhor da asma, a yoga está em dia, e nossas refeições estão muito mais saudáveis. Certo dia a gente se pegou rindo da seguinte frase: “É só acabar com o surfe que a gente toma vergonha na cara!”.

Pois é, foi preciso um cenário de pandemia e isolamento social para eu mergulhar de cabeça e entender minha relação com o surfe. Assim como nas relações humanas, é difícil perceber o limiar entre o relacionamento saudável e o abusivo quando olhado de dentro. Estar perto do mar move minha vida, sem duvidas. Fiz de tudo para conseguir incluir o surfe no meu dia a dia, mas apesar desse amor todo, qualquer relação precisa de equilíbrio.

Em casa, nós fazemos nosso horário de trabalho, e muitas vezes temos o dia livre. Nesses dias, antes da quarentena, eu surfava... sempre! Aqui o mar raramente fica flat. Mesmo moída do dia anterior, mesmo com a vala ruim, eu surfava! Nos dias de onda boa então nem se fala. Eu fazia a primeira queda e voltava pra casa só depois de 4 horas de surfe. Chegava tão cansada que não tinha energia para focar em fazer comida e acabava por muitas vezes comendo qualquer coisa. Depois, eu descansava pra segunda queda. E então acabava a disposição para todo o resto. Fora da água, eu parecia alguém que tinha apanhado. Sem energia e sem ânimo pra fazer mais nada. E pior:


_se ao final de tudo a queda não tivesse rendido, eu entrava fundo na cobrança de passar tanto tempo na água e não “evoluir” da forma que eu gostaria.


No fim, o surfe apesar de ser uma das coisas mais importantes para mim, estava me fazendo mal. É como numa relação qualquer, seja de trabalho, de alimentação ou de amor: ela por si só não pode ser sua vida inteira. Você precisa se cuidar, cuidar das outras pessoas ao seu redor, nutrir a mente e dar atenção pra saúde. Se um único relacionamento te impede disso, tem alguma coisa desequilibrada aí! E foi assim, sendo obrigada a abrir mão dessa parte de mim que pude perceber e refletir:


Como posso voltar a ter uma relação saudável com o surfe? 


Posso começar a não querer mudar o outro. Parece o clichê da conversa sobre trêta de casal. Mas o caso é bem parecido. Não posso querer mudar meu surfe, e sim aproveitá-lo no nível em que eu estiver. Surfar não é só sobre desempenho, na realidade esse é o menor dos fatores. Pelo menos pra mim é uma conexão quase que sagrada. Lembro dos dias em que eu entrava no mar, olhava pra serra e pra natureza em volta e depois olhava de novo pro outside... Via aquela onda quebrando de lado e pensava “C*... é muito perfeito”. O primeiro mergulho do dia, a espuma do mar vindo cheia de energia. É uma sensação difícil de descrever. E o engraçado é que ultimamente não estava dando tanto valor pra essa essência, mas hoje fico feliz só de pensar em entrar no mar, mesmo que não consiga nem dropar uma onda.

Apesar de toda essa energia boa, também não posso querer surfar 24 horas por dia, todos os dias. Tenho que dar descanso ao meu corpo, e focar em outras coisas. Isso inclusive tem me ajudado bastante nessa quarentena. Relembrar o que eu também amo na vida ou até descobrir novas atividades. Num relacionamento saudável, você não tem medo de períodos afastados, você tem medo de não ser livre pra isso. Se o surfe é a razão de você estar mal nessa quarentena, essa relação tem que ser ressignificada. 


_com tanta coisa acontecendo, tanta gente passando dificuldade, ficar um tempinho longe do surfe é mesmo o maior dos problemas?


Claro que não é fácil ficar bem com essa distância e podem acontecer recaídas, mas o momento agora é de ser grata e viver esse cenário autocontrole. 

Não sei a relação de vocês com o surfe, mas já pararam pra pensar nisso? Pra mim surfe é igual alimentação: é essencial e pode ser feito de varias maneiras. Quando desequilibrado faz mal, mas em harmonia, é nutrição, é cura e é saúde. Sou grata pelo privilegio de me relacionar com o mar dessa maneira e espero manter o surfe pela vida. Então que seja em sua melhor versão!

Força manas <3  



Beijos e, se puder, continue em casa.


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Texto escrito por: @fer_filipini

Você sabia que nós somos um blog colaborativo? Nossa missão é inspirar mulheres a surfar e um dos passos nesse caminho é dar voz as próprias mulheres. Uma seguidora da @langaibr enviou esse texto pra gente por livre e espontânea vontade, se você também quiser compartilhar um desabafo ou conhecimento que seja útil pra mulherada surfista, é só chegar: luiza@langai.com.br

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