Diário de uma surfista: Andrea Moller

17/01/2022
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    Neste diário de uma surfista temos a honra de ter a Andrea Moller, gigante do surf, gigante de alma e colecionadora de inúmeras conquistas, abrindo o coração para nos contar sobre a sua história de vida, seus medos e ainda dando conselhos valiosos. 

    Andrea, é uma honra para mim e para toda a equipe de colaboradoras do blog (e esse recado eu me sinto na obrigação de te dar porque quando contei que você participaria do diário, elas ficaram muito animadas hehe). Bom, um clique rápido pelo Wikipédia me revelou que você é

     

    _canoísta, surfista, atleta de ponta em vários esportes aquáticos incluindo o Stand-Up Paddle, ciclista e paramédica! Vamos começar do começo? Como começou a tua relação com o mar?

    Obrigada pela oportunidade! A vida aqui tem sido corrida, principalmente quando é inverno (que é quando tem onda) porque eu trabalho de paramédica FULL TIME e minha filha está indo embora para San Diego então eu tenho passado muito tempo com ela, mas é um prazer falar um pouquinho com vocês.

    Na verdade, eu cresci na Ilha Bela, e lá não tinha muita coisa pra fazer além do mar, não tinha cinema, eu ainda não dirigia, não tinha muito turista durante a semana e tudo o que eu tinha era o mar. Então eu fui muito exposta ao mar em todas as atividades, eu gostava de nadar de Ilha Bela para São Sebastião, ia muito para cachoeiras e comecei a velejar de windsurf. Essa relação muito profunda vem de lá. Meu pai era um cara muito do mar, ele sempre me colocava pra velejar e no começo eu até tinha medo, chorava, mas aí não tinha outra escolha, ele ia levar a gente pro mar de qualquer jeito então virou a minha diversão.

     

    _você estava em Ilha Bela e tomou a decisão de se mudar para o Havaí ainda muito jovem. Como foi esse momento pra você?

    Na verdade não foi muito difícil sair de Ilha Bela, hoje em dia eu me considero metade brasileira e metade havaiana, já perdi as minhas gírias e até meu português é um pouco enferrujado. Meu coração é de Ilha Bela, mas eu cresci havaiana porque vim com 17, quase 18 anos. Era a época que eu precisava decidir o que eu queria fazer para a faculdade. Como na época eu velejava de windsurf, o meu sonho era Maui. Então eu fui pra San Diego para estudar inglês e aproveitei para visitar o Havaí. E daqui eu nunca mais fui embora. Consegui os vistos, fiz amigos que viraram família e muitos amigos que são do mar, então a conexão continuou muito forte, como em Ilha Bela. Aqui tem surf, tem canoagem, e você quer fazer de tudo um pouco.

     

    _você coleciona vários recordes que são de tirar o fôlego (literalmente, né?). Nós somos muito fãs! É uma trajetória linda e admirável. Compartilha com a gente alguns desses momentos como, por exemplo, como foi entrar para o Guinness Book.

    Eu nunca fui muito de falar sobre essas conquistas, eu acho que muitas delas aconteceram naturalmente. Eu sou muito focada, quando coloco algo na cabeça eu faço de tudo pra dar certo e nem penso em título, como por exemplo esse dia do Guinness. Essa onda que eu ganhei o Guinness eu surfei uns dois anos antes de ser reconhecido, eu lembro que foi um dia gigante com condições perfeitas, o mar liso. É difícil encontrar Jaws com mar liso e paredão perfeito. Jaws geralmente é uma onda que na foto parece muito bonita, mas no surfe mesmo é uma onda muito difícil, mas nesse dia estava perfeito. Estava grande demais e muitas pessoas não conseguiam fazer a onda, nenhuma menina surfou e o meu amigo Yuri Soledade, com toda sua positividade, me falou: "Andrea, só você tem essa garra, você tem que vir". 

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  • Surfista: Andrea Moller | Foto: @erikaederphotography

     

    E a gente caiu na água juntos e peguei essa onda linda. Então foi algo realmente do coração, não era campeonato, não era Guinness, não era pra foto, era porque o mar estava chamando. E assim eu conquisto muito mais, quando me preocupo com resultados, com patrocinador, etc, eu me distraio. 

    Outro momento que eu gostaria de compartilhar são as travessias de Molokai para Oahu. Isso faz muito parte da minha história de canoagem e de Stand-Up. São horas cruzando o mar numa jornada muito incrível e acho que todo remador deveria cruzar esse canal. Virou uma paixão muito intensa pra mim e  acho que é uma das coisas que eu mais gosto e fazer. Parte disso é porque você passa horas no mar lendo aquela ondulação e é só você e o mar. E essa conquista de chegar em uma outra ilha é uma emoção. Então essa paixão por atravessar esses canais foi o que me ajudou a conquistar tantos títulos de canoagem e de SUP.

     

    _quando penso no seu nome, duas palavras me veem à mente: força e coragem. Você é uma das poucas mulheres brasileiras no surf de ondas gigantes. Eu queria saber como é a sua relação com esse tipo de onda. 

    Muito obrigada! Espero que eu possa transferir essa força e coragem para outras mulheres que leiam essa entrevista. Eu acho que toda mulher é guerreira. Só a palavra "mulher" já é uma palavra muito forte. A onda grande é a força da mãe natureza, ela é muito mais forte que qualquer um de nós e se você não entrar em harmonia com ela, você vai se machucar. Eu já me machuquei e fiquei de cama por muito tempo. Então você tem que ter muito respeito e muito treino e ver bem dentro do teu coração se é isso que você quer. Eu não acredito em surfar onda grande pelo dever de competir, desde o começo eu olho pra onda e vejo se é o meu dia. E não é todo dia que eu estou com força e coragem para encarar, então você tem que se escutar. Esse tipo de mar faz você ser sincera com você mesma. Quando você rema num mar desses você tem que acreditar muito em você mesma.

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  • Surfista: Andrea Moller | Foto: @erikaederphotography

     

    _para muitas meninas, o medo pode ser um empecilho para começar a surfar ou uma pedra no sapato na hora de evoluir no esporte e se jogar sozinha, de forma mais independente. Me conta se você tem ou já teve medo e como você lida com isso. Você tem algum tipo de ritual de preparação ou válvula de escape na hora do desespero?

    Eu já tive inseguranças. Você pode nomear de insegurança, respeito ou medo. Eu sinto que tem uma força muito grande dentro de mim que me traz pro mar e que é maior do que o meu medo, é algo que me atrai. Quando eu me machuquei em Jaws, eu precisei fazer cirurgia, transfusão de sangue e eu achava que nunca mais iria poder surfar. Na verdade, eu achava que não sabia nem se ainda poderia andar. E, quando eu me recuperei, eu voltei pra onda grande. Lembro de me perguntar porque que eu estava fazendo aquilo de novo, correndo aquele risco e eu cheguei à conclusão que você transforma aquele medo em respeito pelo mar e em preparação técnica. Se o que te leva ao surf é realmente a sua paixão por esse esporte, você vai superar esse medo. É muito importante a gente ser humilde diante da grandeza da natureza. Então, a forma como eu lido é me preparando e estando sempre bem fiel às minhas vontades. Eu faço treinos de respiração e apneia e tento aprender com as minhas experiências. Qualquer pessoa pode ter a sua própria experiência de mar, é cair no mar todo dia que puder que isso vai te ajudar na hora de algum desespero.

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    _acompanho suas redes sociais e me encanto com seu serviço de paramédica numa região tão desafiadora. Como foi que você se descobriu nesse tipo de missão? 

    Eu sempre tive uma paixão por medicina. Eai, quando cheguei aqui, eu dava aula de mergulho, mas em 2008 a economia estava um pouco parada, tinha pouco turismo então eu aproveitei a oportunidade para estudar. De cara eu já me apaixonei por salvatagem. Na época do mergulho eu presenciei pessoas morrerem próximo a mim na água então eu tinha essa motivação de aprender ao máximo para estar lá para salvar os meus amigos, para a minha família. Já fazem 13 anos que eu trabalho na ambulância e resgate de helicóptero e eu procurei me desenvolver ao máximo nessa área e isso toma muito tempo da minha vida, mas eu faço com todo o prazer.

     

    _a jornada da maternidade também pode ser tão desafiadora quanto praticar esporte radicais, não é verdade? Muitas leitoras compartilham conosco a dificuldade de se manter ativa no mar quando se tornam mães. Depois melhora? Tem alguma dica? 

    Essa é a pergunta que eu mais gosto de responder, porque a emoção de ser mãe, o orgulho e o desafio são enormes. A mulher que é atleta é muito mais ocupada que qualquer homem porque ela precisa ser esposa, mãe, cuidar do seu lar, fazer o supermercado... São várias funções invisíveis que se acumulam. Eu tive a minha filha com 23 anos, era nova, e todas essas minhas conquistas vieram depois dela. Então eu fiz tudo seguindo o meu coração, eu pensava que o que me trouxesse felicidade, eu iria conseguir transferir pra ela. Algumas pessoas me questionavam sobre os esportes radicais, se eu não me preocupava com minha filha, etc. Mas eu acho que, como mãe, eu fazia esse desafio até com mais responsabilidade de não se machucar e eu voltava pra casa a pessoa mais feliz do mundo cantando e dançando com minha filha. Eu dividi com ela a felicidade de todas as conquistas então ela cresceu influenciada por esse meu lado de lutar muito e não desistir daquilo que te faz ser quem você é. Uma dica que eu dou é ser bem clara e comunicar pra sua família o que é importante pra você. Eu aproveito muito o horário que ela está na escola eai eu fico bastante focada naquelas 4 horas de treino, eu não fico de papo, eu realmente me dedico naquele momento. Então eu acho que é foco, organização e clareza entre a sua família. Minha filha e meu esposo sabem o quanto eu considero importante o surf e eles sabem que, quando eu estiver com eles, o meu tempo é 100% deles, sem celular, sem pensar em outras coisas. Eu acho muito importante toda mulher seguir os seus sonhos, lutar pelas suas conquistas e não desistir porque a maternidade é difícil no começo, mas vale a pena. 

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    _você considera que já enfrentou alguma dificuldade particular no seu trabalho ou no esporte apenas por ser mulher? Como você lidou com isso?

    No trabalho de paramédica não. Mas no esporte com certeza desde o começo até hoje. Eu fui a primeira mulher a surfar Jaws na remada e talvez seja a única a fazer resgate de jet-ski aqui. Eu ouvia muitos comentários do tipo: "porque essa menina está aqui?", "hoje não é um dia bom pra mulher, está grande demais". Então eu sempre procurei entrar com muita confiança em mim, não depender de ninguém e fui provando aos poucos que tinha qualidade para estar ali. Por muitos anos tiveram campeonatos de twin só de homem ou no máximo convidavam uma menina, mas ela não estava competindo, não tinha patrocínio, não tinha premiação. Isso é algo que a gente lida até hoje e lutar por igualdade é um grande objetivo meu. Conquistamos o nosso espaço e hoje a WSL paga igual para todos os homens e mulheres. Foi assim que o Guinness reconheceu que eles tinham um recorde pra homem e não tinham um para mulher. Acho que é uma batalha que ainda temos em todos os esportes. Quando me contratam para trabalhar na água eu sempre pergunto quanto estão pagando aos homens por aquela função. Se não for igual, eu prefiro não ir para lutar pelas meninas, é algo que todas as meninas devem se unir para mudar.

     

    _definitivamente você é uma mulher do mar! Será que você conseguiria escolher seu esporte ou sua atividade preferida? 

    Surf com certeza, mas eu achei maneiras não tradicionais de surfar. Por exemplo, as travessias. Lá a gente está surfando em mar aberto até chegar em uma outra ilha. Então no inverno eu foco no surf e no verão eu faço os downwinds de foil e canoagem.

     

    _eu queria saber fora do mar, o que é que você AMA fazer?

    Com certeza agora é passar tempo com a minha família. Ela está indo pra faculdade, saindo de casa, então tenho passado esses últimos meses meio de desespero sabendo que ela vai abrir as asinhas e vai voar! Então, não importa o que estamos fazendo, se estamos juntos, definitivamente é o que eu mais amo fazer. Ter família e amigos unidos e bem de saúde me deixa muito feliz.

     

    Esse foi o diário de uma surfista da Andrea Moller. Pensamos nesse modelo de entrevista como uma forma diferente de você conhecer a história de surfistas mulheres do Brasil (e porque não do mundo?) como mais uma forma de inspirar meninas a surfar. Afinal, inspiração é conexão, e eu tenho certeza que você se identificou com alguma coisa desse post.

    Se você gostou de conhecer a história da Andrea, deixa aqui um comentário pra ela! Esse diário foi escrito pela Gabi.

     

     

     


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